Robson Braga de Andrade, Presidente da Confederação Nacional da Indústria
 

É hora de buscar o entendimento para
superar a crise política e econômica

Precisamos, com urgência, construir consensos para fazer o necessário ajuste macroeconômico e promover reformas estruturais na Previdência, no sistema tributário e na legislação trabalhista

 

O Brasil atravessa um dos momentos mais complexos de sua história recente. A crise política e a recessão prolongada abalam o ímpeto dos empresários e tiram o ânimo dos consumidores. Os investimentos e o consumo não param de cair. O desemprego aumenta e a renda da população diminui, criando um quadro desalentador, especialmente para a indústria. O setor encolheu 6,4%, contribuindo para a retração de 3,8% no Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2015.

Nesse momento adverso, o Sistema Indústria reafirma seu compromisso com o país e com o enfrentamento da crise. Ao longo de 2015, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) manteve o diálogo transparente com o governo e o Congresso Nacional. Na qualidade de representante máxima do setor no Brasil, propôs ao país uma agenda positiva e investiu em projetos destinados a elevar a produtividade, a inovação e a qualificação dos trabalhadores.

Nossas estratégias e ações, detalhadas nesta 3ª edição do Relatório de Sustentabilidade, buscaram, sobretudo, mudanças essenciais para resgatar a confiança, estimular os investimentos e promover a competitividade da indústria brasileira. Os números do relatório mostram que a crise reduziu nossas receitas e exigiu ajustes internos. Os resultados da busca por mais eficiência nos processos de CNI, SESI, SENAI e IEL, assim como os efeitos das iniciativas voltadas à economia de recursos, começam a aparecer e serão mais visíveis em 2016.

A superação desse cenário foi o principal tema dos debates do 10º Encontro Nacional da Indústria (ENAI), o maior fórum de líderes empresariais brasileiros, que reuniu cerca de 2 mil participantes em 15 e 16 de novembro de 2015, em Brasília. A Carta da Indústria, documento que consolidou os resultados das discussões, apontou o caminho para a correção de rota no país. Uma das recomendações foi o aumento da participação do Brasil no comércio internacional e nas cadeias globais de valor.

Em 2015, a CNI reafirmou a necessidade de celebração de acordos comerciais com outros países ou blocos econômicos, especialmente com Estados Unidos, União Europeia e México, além da revisão da estratégia negociadora do Mercosul. Apresentou, ainda, propostas para aperfeiçoar o Plano Nacional de Exportações e defendeu a assinatura de acordos contra a bitributação, visando à remoção dos obstáculos ao processo de internacionalização de empresas brasileiras.

Além disso, para contribuir com a construção de uma agenda compatível com o necessário ajuste fiscal, a entidade apresentou ao governo o documento Regulação e Desburocratização: propostas para melhoria do ambiente de negócios. São 94 propostas de baixo impacto nas contas públicas que têm como objetivos simplificar os tributos, reduzir a burocracia, modernizar as relações de trabalho, ampliar os investimentos em infraestrutura, estimular as exportações e aumentar a produtividade das empresas.

As propostas, que foram selecionadas entre as apresentadas nos 42 documentos entregues pela CNI aos candidatos à Presidência da República, em 2014, estão alinhadas com o Mapa Estratégico da Indústria 2013-2022. Em 2015, infelizmente, o país pouco avançou na direção do que o setor defende como formas de promover o desenvolvimento.

É importante destacar, porém, que a sanção do novo marco legal da inovação foi um passo importante. Fruto das discussões no âmbito da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), iniciativa coordenada pela CNI, a nova legislação aumenta a cooperação entre empresas, universidades e instituições de pesquisa. Deixou, entretanto, de contemplar itens essenciais, como incentivos à importação de bens destinados à pesquisa e benefícios fiscais para concessão de bolsas de estudo.

Somando esforços no apoio à inovação nas empresas, o SENAI, com recursos próprios e financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), investe, desde 2012, na implantação dos Institutos de Tecnologia e dos Institutos de Inovação. Eles atuam em rede, prestando serviços técnicos e tecnológicos, consultorias, ensaios, calibrações e testes laboratoriais.

Atualmente, estão em operação 42 dos 59 Institutos de Tecnologia previstos. Com relação aos Institutos de Inovação, 16 já atuam. Neles, foram desenvolvidos 150 projetos de inovação e pesquisa aplicada avaliados em R$ 155,6 milhões. O plano é implantar mais nove Institutos de Inovação.

O Sistema Indústria reafirmou a necessidade de o país investir na melhoria da educação básica e profissional. Em 2015, o SENAI e o SESI intensificaram as ações voltadas à qualidade do ensino, como a atualização dos currículos, a adoção de novas tecnologias educacionais e o aperfeiçoamento da gestão escolar. O SENAI recebeu mais de 3,4 milhões de matrículas em cursos profissionalizantes. O SESI atendeu quase 280 mil crianças, jovens e adultos na educação básica.

Nosso desafio é aumentar a inserção de jovens nos cursos técnicos de nível médio. Apesar dos avanços registrados pelo Censo da Educação Básica, os números brasileiros na educação profissional ainda ficam muito distantes da maioria dos países. Na União Europeia, em média, 49% dos alunos do ensino secundário fazem cursos profissionalizantes. No Brasil, esse número é de apenas 8,4%.

Com o objetivo de convidar a sociedade a fazer uma reflexão sobre o valor da educação profissional e como ela pode mudar a vida dos jovens, a forma de produção das empresas e o futuro do país, o SENAI realizou a 42ª edição da WorldSkills. Essa olimpíada internacional de educação profissional ocorre a cada dois anos em diferentes países — foi a primeira vez em que o torneio foi sediado na América Latina.

Organizamos uma competição internacional de alto nível. Mais de 250 mil pessoas foram ao Complexo de Exposições do Parque Anhembi, em São Paulo, entre 12 e 15 de agosto, conferir as provas de 50 ocupações técnicas, que reuniram 1.189 jovens de 59 países. Num fato inédito na história de suas participações no torneio, desde 1983, o Brasil ficou em primeiro lugar, à frente de países cuja educação é referência em todo o mundo, como Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos e Alemanha.

O desempenho desses jovens confirma a excelência dos cursos técnicos e de aprendizagem profissional oferecidos pelo SENAI. É, também, um estímulo ao investimento contínuo no aperfeiçoamento dos currículos e na atualização tecnológica das escolas.

A formação de trabalhadores capazes de transformar a realidade da indústria e do país começa na educação básica. Por isso, o SESI reformulou o currículo do ensino médio, com a finalidade de promover cursos voltados para o mundo do trabalho e a formação profissional. Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), implantou um projeto pedagógico inovador, com currículos mais flexíveis e adaptados à realidade dos alunos. Planejamos manter, em 2016, os investimentos na qualidade das escolas do SENAI e do SESI, e nos serviços de apoio à competitividade das indústrias.

Temos a convicção de que o Brasil é maior do que qualquer crise. Nossa expectativa é de que, com o comprometimento de toda a sociedade e a vontade política dos governantes e dos parlamentares, o país reencontre o caminho do entendimento e supere as turbulências políticas. Precisamos, com urgência, construir consensos para fazer o necessário ajuste macroeconômico e promover reformas estruturais na Previdência, no sistema tributário e na legislação trabalhista, abrindo caminho para a volta da estabilidade e para a retomada do crescimento econômico.