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07 Jan 2016

ENTREVISTA: 2016 será o ano dos acordos comerciais, diz diretor da CNI

Para Carlos Abijaodi, o Mercosul precisa ser revisto para negociar acordos de livre comércio mais completos, que englobem temas como compras governamentais, serviços e investimentos

Carlos AbijaodiA indústria brasileira tem uma grande necessidade de buscar novos mercados consumidores fora do Brasil, principalmente nesse momento de crise, o que só será possível com a assinatura de acordos comerciais. Essa é a avaliação do diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Abijaodi. Segundo ele, a negociação de tratados de livre comércio permitirá que as empresas acessem tecnologia e inovação no exterior, aperfeiçoem seus produtos, reduzam custos e aumentem a produção interna.

No entanto, Abijaodi explica que alguns setores da indústria devem ter perdas num primeiro momento quando o Brasil começar a derrubar barreiras tarifárias em troca da redução de barreiras não-tarifárias com países como os Estados Unidos. Mas, alerta, os empresários e os negociadores têm que observar o resultado final, os ganhos diretos e indiretos para a economia, e não se prenderem na queda das tarifas brasileiras. “É um jogo de ganha-ganha e ninguém fará um acordo que é bom só para um lado. Por isso, é preciso ceder para ganhar”, explica. A Agência CNI de Notícias entrevistou o diretor da CNI. Confira:

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS – O que a área internacional da CNI espera para 2016?

CARLOS ABIJAODI – Em 2015, finalmente tivemos uma abertura e pudemos falar em negociar efetivamente os acordos comerciais. Parece que acabou o preconceito do governo brasileiro que deixou o país isolado do restante do mundo por mais de uma década. Hoje há um terreno fértil para trabalhar e reinserir o Brasil no comércio internacional. Para este ano, é necessário continuar nesse caminho. Pela estratégia que sentimos do próprio governo, o objetivo é concluir o acordo com México e começar a negociar com o Canadá. São dois países do Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio). Com os Estados Unidos, o primeiro passo é preparar o terreno para um acordo no futuro próximo.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS – O que é preciso para avançarmos na agenda de acordos comerciais?

ABIJAODI – Como o Brasil optou por não negociar acordos de livre comércio nos últimos quinze anos, temos que retomar desde o princípio. Uma grande parte de pequenos e médios exportadores deixou de exportar. Primeiro, é preciso aumentar o número de exportadores. Segundo, o Brasil tem que trabalhar em acordos comerciais de diversos tamanhos e portes e com diferentes países e blocos. Negociar com os países da América Latina e se aproximar dos países e blocos onde existe tecnologia e mercado, como os países europeus e os asiáticos, é fundamental.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS – O Brasil está preparado para isso?

ABIJAODI – As negociações de um acordo ampliado com o México são um teste, porque trata além de tarifas. O acordo envolve regras de origem, barreiras não tarifárias, serviços, compras governamentais, facilitação de comércio, coerência regulatória e outros temas. Como nós ficamos afastados dessas negociações por muito tempo, o governo ainda não tem segurança se, no momento que ele avançar, a indústria avançará com ele.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS – E a indústria vai avançar?


ABIJAODI – Os empresários querem, mas esse desejo balança quando chega a hora de baixar as tarifas de importação. A realidade é que os empresários precisam se adaptar. Nas negociações, nós vamos discutir tarifas visando a derrubada de outras barreiras. Nem todos os setores vão ganhar. Uns vão ganhar mais e, outros, menos. Mas os ganhos indiretos poderão compensar perdas de outros setores. Nós estamos num impasse, o Brasil ficou muito tempo afastado das negociações e o mundo está se formando em blocos e esses blocos estão estabelecendo normas, regras e padrões entre eles. Estão zerando tarifas. Eles estão estabelecendo regras para investimento e nós estamos ficando de fora. Não há muito opção, porque no cenário atual, os produtos brasileiros são os mais prejudicados.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS – Mesmo com o real desvalorizado?


ABIJAODI – O câmbio está mais favorável para as exportações, mas também para a vinda de empresas estrangeiras porque nossos ativos estão mais baratos.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS – O que podemos esperar de um acordo com a União Europeia?

ABIJAODI – O acordo com a União Europeia vai dar muito trabalho, porque nós estamos enferrujados. Até os negociadores brasileiros pegarem o ritmo vai ser difícil. Mas também não podemos dizer: ‘comecei com União Europeia e agora não discuto com mais ninguém’. Os europeus precisam saber que estamos negociando com outros concorrentes deles. Com o Efta (Associação Europeia de Livre Comércio), com Estados Unidos e com o Japão. Para este ano, o governo brasileiro nos disse que pretende avançar com o Efta, Marrocos, Argélia, Tunísia e ampliar o acordo Mercosul - SACU (União Aduaneira da África Austral). Além disso, começou a assinar os Acordos de Cooperação e Facilitação de Investimentos (ACFI), com maior ênfase na proteção dos investimentos por meio de mecanismos de prevenção e solução de disputas. É um outro avanço, mostra um status diferente do Brasil, mostra que o país quer ser abrir.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS – Qual deve ser a estratégia brasileira na negociação de acordos?


ABIJAODI – O imposto de importação no Brasil é, em geral, alto. Essa pode ser uma moeda de troca. O Brasil derruba suas tarifas em troca da redução de barreiras não tarifárias, como de padronização de regulamentos e de acordo de investimentos. Devemos negociar novos temas. A Parceria Transpacífico, por exemplo, incluiu meio ambiente e relações trabalhistas. Nós não precisamos ir a esse extremo, porque o Brasil ainda não tem maturidade para discutir relações trabalhistas, mas é possível começar com outros temas, como compras governamentais, serviços, investimentos, propriedade intelectual e convergência regulatória.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS – É o momento de negociar?

ABIJAODI – Não existe um momento perfeito para negociar. Mas o princípio da negociação é não fecharmos um acordo que seja bom só para um lado. O Brasil deve colocar sob a mesa os produtos sensíveis, que não pode ceder. E também apresentará a lista com os produtos que pode fazer concessões. O outro lado fará o mesmo. Assim começa a troca de ofertas. Agora, ao mesmo tempo, é necessário pensar mais alto.

AGÊNCIA CNI DE NOTÍCIAS – A CNI parece ter grandes expectativas, mas o Mercosul está preparado para essa nova forma de negociar?

ABIJAODI – O Mercosul está obsoleto. Nós não temos conversado entre nós. O Mercosul foi criado para ser uma União Aduaneira. Nós ficamos só nas tarifas e no livre trânsito de pessoas. Atualmente está cheio de ex-tarifários, tem gente furando a Tarifa Externa Comum (TEC) toda hora, os países criam barreiras ao comércio... E a solução de controvérsias? Fica por conta dos presidentes das Repúblicas. O Mercosul é uma árvore que se plantou e se não cuidou dela. O Mercosul tem que ser revitalizado, reprogramado, refeito, revisto.

Por Adriana Nicacio
Foto: José Paulo Lacerda
Da Agência CNI de Notícias

REPRODUÇÃO DA ENTREVISTA - As entrevistas publicadas pela Agência CNI de Notícias podem ser reproduzidas na íntegra ou parcialmente, desde que a fonte seja citada. As opiniões aqui veiculadas são de responsabilidade do autor. Em caso de dúvidas para edição, entre em contato pelo e-mail imprensa@cni.org.br.

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