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9 de Junho de 2013 às 23:00

País precisa fazer ciência como negócio, diz cientista-chefe da IBM

Chefe do primeiro laboratório aberto no hemisfério Sul pela gigante de tecnologia IBM, Fábio Gandour, 60, acha que é necessário mudar a pesquisa científica no Brasil.

Na prática, livrar-se do "caráter doutrinário" e fazer "ciência como negócio" --cujo objetivo seja gerar lucro para quem a financia.

A mudança, diz, exige planejamento, continuidade apesar das mudanças de governo e espírito de competição.
Sem isso, o país pode desperdiçar a onda de investimentos que virá com as concessões de infraestrutura e os grandes eventos esportivos.

De olho nessa maré, a IBM definiu quatro troncos de negócios: óleo e gás, mobilidade urbana, microeletrônica e serviços. Em dois anos, obteve 40 patentes.

Se elas se traduzem em lucro, como preconiza o cientista-chefe? Impossível saber. A empresa, que fatura mais de US$ 100 bilhões por ano nas operações globais (se fosse um país, teria o 60º maior PIB do mundo), não divulga dados financeiros do Brasil.

Fábio Gandour, cientista chefe da IBM, em frente ao prédio da empresa em SP

Folha - Como convenceu a IBM a abrir um laboratório no Brasil?


Fábio Gandour - Quando surgiu o conceito de Bric, percebi que havia um movimento muito forte em direção ao Brasil, de dinheiro, curiosidade, demanda de produção. Toda vez que isso acontece, aumenta a complexidade.

Por exemplo, o padeiro tem um método de gestão de qualidade. Se a farinha não estiver boa, reclamará com o fornecedor. Se tiver que passar de cem para mil pães por fornada, sem um método diferente, esse treco desce pelo ralo. A escala, a qualidade e o perfil da demanda mudam. Imagina quando você multiplica isso por muitas pessoas, em várias organizações.

Vendo que a complexidade ia ser crescente nesse exótico país tropical chamado Brasil, que nunca teve uma tradição em educação, nem em métodos sofisticados de manufatura nem em engenharia de produção --embora com ilhas de excelência nas três áreas--, concluí que os métodos tradicionais de solução de problemas não seriam suficientes.

O grande argumento que convenceu o alto escalão foi o conceito de ciência como negócio. A ciência evoluiu na história muito dentro da academia, onde adquiriu um caráter doutrinário. Nada contra. O problema é que não funciona fora da academia.

Quais são as diferenças em relação à ciência como negócio?

A ciência doutrinária tem credos, liturgia, até dogmas. Descumpra a liturgia de uma universidade, para ver. Você não sai do lugar [risos]. As universidades mais tradicionais praticam esse modelo, que alargou as fronteiras do conhecimento até hoje, mas não serve para produção de novas soluções.

Vamos desenvolver uma ciência cujos resultados sejam plenamente orientados a causar impactos positivos nos negócios dos seus financiadores. Essa é a diferença essencial. Enquanto um professor desenvolve uma pesquisa cujo resultado será uma publicação, nós desenvolvemos uma cujo resultado será alvo de uma patente.

Isso não é o que já fazem os laboratórios farmacêuticos?
Há muito tempo. É também o que fazem algumas universidades americanas. Num equilíbrio muito bom entre doutrina e negócio.

Acredito que um laboratório que pratique ciência como negócio é autossustentável, um negócio como qualquer outro. Se for bem gerenciado.

Ele dá lucro. E corre um sério risco de ser um departamento altamente lucrativo quando der uma pegada, dessas na veia. Como a IBM, quando levou o primeiro Nobel de Física cujo objeto de premiação não era uma teoria, mas um objeto: o microscópio de força atômica.

Quando o sr. fez o plano de negócios do seu laboratório, projetou um resultado positivo em quanto tempo?

Cinco anos, até 2015. Já temos mais de 40 patentes. Em 2012, a IBM, pelo 20º ano consecutivo, foi campeã no registro de patentes nos EUA. Mas a gente não faz patente para ganhar o campeonato. Faz porque tem um mecanismo de monetização desse capital intelectual. Um departamento cheio de advogados e economistas, que transforma a patente em dinheiro.

Quando o sr. poderá dizer que seu projeto deu certo?


Já deu. Já ultrapassou o ponto de "no return", por causa da importância que esse pedaço do planeta tem na economia mundial.

Esse pedaço é o Brasil?


Não, é o hemisfério Sul. E já consigo enxergar o próximo pedaço do planeta que fará grande sucesso. A África.

Uma empresa ganha mercado se tiver um centro de pesquisa aqui?


Ah, ganha. A solução desses problemas no mundo mais complexo exige uma dinâmica que você não encontra nos países que já atingiram um grau de estabilidade, avanço social maior. Se você pensar, isso tem tudo a ver com o bônus demográfico.

Que a gente está perdendo...

Que a gente está vivendo. Se está ganhando ou perdendo eu deixo para os economistas.

 * Matéria assinada por Ana Estela de Souza Pinto e publicada em 09/06/2013