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15 de Outubro de 2013 às 14:21

Entraves burocráticos dificultam crescimento do número de patentes no Brasil, diz diretor do Butantan

Das cinco maiores empresas farmacêuticas com atuação no Brasil, três são brasileiras e têm “inovação zero”, de acordo com avaliação de Jorge Kalil, diretor do Instituto Butantan, em São Paulo, durante visita técnica de representantes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) no mês de setembro. As demais, ainda segundo Kalil, lideram um tímido processo de inovação incremental, que é a adaptação do produto ao mercado brasileiro.

Kalil: missão de ampliar a variedade de vacinas e soros produzidos no Butantan. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

O Instituto Butantan é membro do Comitê da Cadeia Produtiva da Bioindústria (BioBrasil), iniciativa da Fiesp que, entre outros objetivos, visa estimular o desenvolvimento de acordos científicos e comerciais em âmbito nacional e internacional e chamar atenção do setor para a pesquisa e inovação, aspectos ainda pouco desenvolvidos.

“Não existe inovação. Existem algumas empresas que tentam fazer alguma coisa experimental”, afirma Kalil. Ele assumiu a diretoria do instituto em 2011 e tem como principal mote de trabalho ampliar a variedade de vacinas e soros.

O Butantan é o maior produtor de vacinas e soros da América Latina. Atualmente, o órgão conta com oito fábricas de vacinas. “Temos aqui desde a pesquisa bem fundamental até a produção industrial”, aponta Kalil.

O diretor do Butantan explica que o Brasil passou de uma posição periférica na ciência e na tecnologia para um “marketing share relativo”. Há 15 anos, a fatia de produção científica no mercado brasileiro era de 0,5% e agora chegou a 2,5%, mas o principal obstáculo para a criação de produtos inovadores e registros de patentes continua sendo a burocracia.

“A burocracia mata. O Brasil cresceu, mas esse crescimento em produção científica ainda não se traduziu em números de patentes porque, no meu entender, existem entraves burocráticos muito grandes”, alerta Kalil.

Já o coordenador adjunto do Comitê da Cadeia Produtiva da Saúde (Comsaude) da Fiesp, um braço do BioBrasil, Gabriel Tannus, pondera que embora haja avanços, as produções científicas caminham em linhas muitos semelhantes.

“Aparentemente temos muita repetição e pouca novidade. Até agora ninguém se debruçou para fazer esta separação de maneira metódica, mas esta percepção começa a ganhar corpo entre os pesquisadores”, avaliou Tannus.

Mão de obra
Kalil acredita que o principal desafio para a indústria de produtos biológicos virar uma realidade no Brasil é a formação de pessoal capacitado.  Segundo o diretor do Butantan, somente o estado de São Paulo deve receber em até quatro anos mais de cem fábricas de produtos biotecnológicos.

“É fundamental que no trabalho com a indústria se formem quadros de gestão de inovação e pessoal de nível médio e superior para o desenvolvimento na fabricação desses produtos”, afirmou. “Precisamos de um braço produtor de investimento e desenvolvimento, que é a indústria, ou seja, a Fiesp”, disse Kalil.

Eduardo Giacomazzi, coordenador-adjunto do Comitê da Cadeia Produtiva de Biotecnologia (Combio), uma divisão do BioBrasil, reforçou a declaração de Kalil ao afirmar que o Instituto Butantan pode colaborar com as intenções da Fiesp em estimular inovação no setor por meio de formação profissional.

Giacomazzi, à direita, e Coelho, do Senai-SP, à esquerda: ações pela inovação. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

“A gente é um país que inova muito pouco e a indústria ainda carece de muitos elementos: não só recursos financeiros; é a cultura da inovação. O Butantan é membro do comitê e tem muito a contribuir no sentido de buscarmos, juntos,  soluções. A contribuição dele é na formação de gente”, afirmou Giacomazzi.

 

Outro participante da visita técnica ao Butantan foi o gestor do Departamento de Inovação e Tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP), Carlos Alberto Pereira Coelho.

* Matéria assinada por Alice Assunção e publicada em 08/10/2013