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4 de Fevereiro de 2015 às 02:37

Diretor comercial descarta uso de verba pública no Comitê Rio 2016

Diretor comercial do Comitê Rio 2016, Renato Ciuchini já tem base para afirmar que não será necessário dinheiro público para cobrir o orçamento de R$ 7 bilhões. Depois de um primeiro semestre conturbado em 2014, o período pós-Copa do Mundo trouxe de volta o otimismo. Hoje, de um total de R$ 3 bilhões que devem ser arrecadados com patrocínios locais, já estão fechados R$ 2,6 bilhões. E, ainda que esses R$ 400 milhões restantes não apareçam, afirma que a solução seria gastar menos.

Em entrevista ao GloboEsporte.com, o executivo faz um diagnóstico da situação atual da parte comercial da organização das Olimpíadas de 2016. Se nos primeiros meses do ano passado havia apreensão, hoje o otimismo é justificado em números. 

De acordo com Ciuchini, o sucesso da Copa teve relação próxima com a volta por cima do Rio 2016, que chegou a receber duras críticas do Comitê Olímpico Internacional (COI) e, obviamente, teve de lidar com isso em suas negociações comerciais. Logo após a realização do Mundial, contudo, sete novos contratos foram assinados, as críticas cessaram e a insegurança passou. Neste momento, 85% dos patrocínios estão fechados, outros 10% devem ser fechados até dezembro e 5% ficarão para os seis meses restantes no ano do evento.

A grande preocupação do departamento comercial do Comitê Rio 2016 é o marketing de emboscada. Isso porque os patrocinadores não podem exibir marcas nas arenas e, portanto, dependem de ações de marketing para ter o retorno desejado. Ciuchini também deu suas estimativas sobre a venda de produtos licenciados, avisando que a loja virtual será aberta no primeiro trimestre deste ano e as duas primeiras lojas físicas, uma em um shopping e a outra em aeroporto do Rio de Janeiro, serão inauguradas até o fim do semestre. Um acordo que em breve deverá ser anunciado com uma cadeia de shoppings espalhará lojas pelo país. 

Sobre ingressos, o executivo acredita que poderão ser vendidos mais de 70% dos bilhetes disponíveis já na primeira fase. O percentual foi a estimativa oficial apresentada pelo comitê ao anunciar o início do cadastramento para as vendas. Confira os melhores trechos da entrevista de Renato Ciuchini ao GloboEsporte.com:



GloboEsporte.com: Como são divididas as cotas de patrocínio? Quantas estão fechadas?


Renato Ciuchini: Não existe o conceito de cota, a gente vende exclusividade em uma categoria de produto. Por esse motivo tenho aqui dentro Panasonic e Samsung, a primeira com áudio e vídeo e a segunda telefone móvel. A gente depende da nossa criatividade, do interesse do mercado, a gente pode desenvolver uma categoria específica, ou mais ampla. O COI tem 11 patrocinadores globais e a gente tem 24 ou 25 patrocinadores locais, e não existe conflito de categorias. Tem alguns assinados que ainda não foram anunciados, mas estão em fase final para anúncio. Temos uma expectativa de assinar mais 15 a 20 contratos com patrocinadores locais.



Quanto já foi arrecadado e quanto falta arrecadar para cumprir o orçamento?


Já arrecadamos R$ 2,6 bilhões com os patrocinadores locais, faltam ainda R$ 400 milhões para chegarmos ao nosso orçamento. Isso chega com esses novos, temos várias negociações nesse momento. A Copa do Mundo foi muito boa, ajudou muito porque teve um sucesso muito grande e despertou um interesse muito grande de várias empresas. No mês seguinte à Copa, assinamos sete contratos. Do nosso orçamento de patrocínio, 60% é produto e serviço, 40% em dinheiro.
Os patrocínios, globais e locais, respondem por 51% do orçamento de R$ 7 bilhões do Comitê Rio 2016.

Está correto? Neste caso, está certo dizer que os patrocinadores globais deverão aportar algo em torno de R$ 500 milhões?


É, aproximadamente 51% (do orçamento). Um pouquinho mais (de R$ 500 milhões). Existe um repasse do COI para nós referente aos direitos de transmissão e patrocinadores globais. Em relação ao orçamento, é correta a interpretação de que caso o Comitê Rio 2016 não chegue à meta projetada, o que faltar terá de ser coberto com verba pública?
A gente existe como comitê há cinco anos, até agora não entrou um real de dinheiro público aqui e o nosso objetivo é que não entre um real de dinheiro público aqui. Então se a gente arrecadar um pouco menos, vamos gastar um pouco menos. É um orçamento balanceado, vamos gastar o que arrecadarmos. A gente já está a mais de 85% da nossa meta local de patrocínio. Então a gente já tem grande parte disso feito, temos mapeados para fazer esse ano outros 10% e ficar 5% para 2016, para os últimos seis meses. O dinheiro que está faltando a gente já tem mapeado e boa parte dele a gente já está em conversas com o mercado. A arrecadação de patrocínio não nos preocupa, vamos chegar na nossa meta. 



Essa arrecadação já superou as Olimpíadas de Londres?


Já passou Londres. Mas tem o câmbio, não é? O dólar vem aumentando. Na época foram 700 milhões de libras, que dava mais ou menos US$ 1,05 bilhão. Desde o começo do ano já equiparamos Londres. 

Nota da redação: pelo câmbio deste domingo, com o dólar a R$ 2,58, o valor corrigido da arrecadação em Londres seria de R$ 2,7 bilhões, montante superior ao já arrecadado pelo Comitê Rio 2016, de R$ 2,6 bilhões.

O Brasil tem um problema crônico de falta de investimento em esporte olímpico, a não ser por empresas estatais.

Existe algum planejamento para que essas empresas que estão investindo tão pesado nas Olimpíadas continuem a investir no esporte olímpico do país?
Qual é o grande legado das Olimpíadas?

Temos hoje 25 patrocinadores locais, devemos assinar de 15 a 20 novos contratos e várias dessas empresas nunca tinham patrocinado esporte no Brasil. É uma primeira experiência que essas empresas estão tendo com o esporte olímpico. Cabe a nós e ao mundo do esporte olímpico mostrar a essas empresas que vale a pena esse investimento, que dá retorno, que é um investimento saudável. Claro que a gente não espera que continue no mesmo ritmo depois das Olimpíadas, não seria realista, mas ter um valor residual que continue a ser investido no esporte é factível. Na Copa do Mundo houve uma permissão especial para venda de bebida alcoólica nas arenas.

Como o comitê vai lidar com esse tema?


Temos um patrocinador de cerveja, a Skol, não tenho totalmente a atualização da lei como está, mas o nosso plano é que a gente possa permitir ao patrocinador que venda cerveja nas arenas.

Houve um momento da preparação em que o COI fez críticas muito duras, isso foi divulgado internacionalmente, e certamente teve um impacto.

Qual foi o tamanho desse impacto? Chegou a inviabilizar alguma negociação?


Isso aconteceu no começo do ano passado, quando levamos aquele puxão de orelha do COI e, sem dúvida nenhuma, naquele momento, impactou as negociações. Em paralelo, estavam acontecendo todas as manifestações contra a Copa. Então o primeiro semestre do ano passado foi ruim para nós. Atrasou as nossas negociações. Mas aí tivemos um excelente segundo semestre, porque recuperamos nossa posição com o COI, conseguimos resolver os problemas, o COI fez várias declarações positivas, e a Copa foi um grande sucesso. Logo no mês seguinte assinamos sete contratos. Então, em janeiro assinamos um grande contrato, com os Correios, depois a gente teve esse problema em março e praticamente não assinamos nenhum contrato até a Copa. Acho que a gente não perdeu nenhum negócio por causa disso, mas postergamos a assinatura de vários contratos para o segundo semestre. O patrocínio não envolve diretamente a exposição de marca nas arenas ou nos uniformes. Isso faz com que o patrocinador tenha que obrigatoriamente desenvolver ações de marketing para ter retorno. A Fifa tinha grande preocupação com o marketing de emboscada na Copa do Mundo, mesmo com a exposição de marcas.

Qual o nível de preocupação do comitê com isso, já que depende muito mais de ações fora do estádio?


Com relação ao marketing de emboscada, a gente tem uma preocupação muito maior do que a Copa. Por quê? Porque não aparece a marca nas arenas. Então a gente precisa realmente proteger os nossos patrocinadores e assegurar que nenhuma outra empresa está se associando aos jogos de forma indevida. Alguns aprendizados de Londres. Teve uma época que foram atrás de uma padaria que tinha feito um pão com os anéis olímpicos. Não é isso. Não ofende nenhum patrocinador nosso, ao contrário, gera mais engajamento com a população. Não é com isso que a gente está preocupado. A gente se preocupa com os concorrentes dos nossos patrocinadores. A nossa estratégia é de prevenção e educação. Normalmente a desculpa utilizada é: "A gente não sabia que não podia fazer isso". Então realizamos workshops com as agências de marketing e publicidade, explicando as regras, e todo mundo entende. Quando entra um patrocinador novo, a gente pergunta quem são os concorrentes principais. Aí mandamos uma cartinha aos presidentes informando que assinamos com a empresa tal, você é um concorrente, não pode fazer isso, isso... Fazemos um trabalho de prevenção e monitoramento. Temos três empresas para monitorar presencial, digital, patrocinadores, produtos licenciados e ingressos. E trabalhamos, claro, com todos os níveis de polícia. 

Isso já entrando também na questão da pirataria...
Sim, temos várias reuniões com eles, temos um trabalho conjunto para coibir pirataria, parte de ingressos também que é importante. Claro que coibir 100% é impossível, mas há um esforço grande para minimizar e estamos bem estruturados. O mais importante é a prevenção, porque uma vez que fez, já criou um dano para o patrocinador. Podemos aplicar multas, entrar com processo na Justiça, mas o mais importante é a prevenção para que não ocorra.

Qual a meta de arrecadação com produtos licenciados e qual a previsão para abertura das lojas físicas e da loja virtual?


A gente espera que eles (produtos licenciados) gerem um negócio de um R$ 1 bilhão. A venda dos produtos. Mas não somos nós que vendemos. Temos um royaltie que gira em torno de 15% a 20%, então a nossa receita deve ficar em torno de R$ 150 milhões a R$ 200 milhões com esses produtos. É pequena dentro do orçamento, mas é importante do ponto de vista do engajamento da população, acaba ajudando no patrocínio, no ingresso. A loja virtual abriremos no primeiro trimestre e as primeiras lojas físicas no segundo trimestre. Primeiro serão uma em shopping e outra em aeroporto, aqui no Rio. A gente vai anunciar em breve um parceria com uma cadeia de shoppings e teremos lojas nessa cadeia de shopping pelo país. 



Na questão da venda de ingressos, qual a receita a ser atingida nessa primeira fase, já que foi apresentada uma estimativa de que essa venda inicial será de cerca de 70% dos ingressos disponíveis?


Pode ser até mais nessa primeira fase, depende das arenas. Se você pegar todas as arenas por metro quadrado, 70% está construído, 18% será temporário e 12% está em construção. Do ponto de vista do número de lugares, as grandes arenas estão construídas. A contingência é maior para as instalações temporárias e em construção, porque chega lá o bombeiro muda algo pra lá ou para cá, tem uma diminuição, então tem um nível de contingência maior. Como temos 70% construídos, a contingência será menor do que em outros Jogos. Acho que não temos esses números totalmente fechados, mas acredito que nessa primeira fase a gente terá uma quantidade maior que 70% (dos ingressos). A gente conseguiu, nas primeiras 24 horas, 125 mil inscritos. Se você pensar que cada pessoa pode pedir até seis ingressos para 20 sessões, ou seja 120 ingressos, e nós temos 7,5 milhões de ingressos, já é um número expressivo. A gente acredita que os principais esportes vão estar totalmente vendidos nessa primeira fase.

* Disponível em http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/noticia/2015/01/diretor-comercial-descarta-uso-de-verba-publica-no-comite-rio-2016.html